2009-11-17

poucaterra

os comboios a vapor faziam "poucaterrapoucaterrapoucaterra......". e fazia sentido, enquanto imponentes bestas, queixarem-se da sua lentidão.
e os comboios de hoje? fazem onomatopeia nenhuma reconhecível. ruído apressado e violento de metal pesado sobre metal.

capaz de ser isto mesmo.

mas a criança ainda acompanha religiosamente a sua passagem, desde o ruído ainda longínquo à fuga irremediável do seu campo de visão.
para ela, não se trata do cumprimento de um desdobrável repleto de grelhas com horários, mas sim um acontecimento, uma espécie de relâmpago mais persistente.
é na exploração sem escrúpulos dos vestígios desse fascínio que se encontrará combustível para isto. as pequenas coisas que nos fazem ainda perseguir a ilusão de estarmos realmente vivos para além da realidade.

bem sei que é pouco.

e tu, o que te faz voltar?

2007-03-27

ouriços-cacheiros

estão a falar de ouriços-cacheiros ali no programa infantil. encontrava-os perto da arena do meu cão, o "fadista", um rafeiro tão rafeiro e tão desgraçado que o nome era fado e redundantemente acertadíssimo. ainda o conheceste? um bocado esfarrapados na barriga.
dos primeiros bichos que li e vi em livros, numa colecção antiga que gostava de recuperar.

2007-03-20

enigma de sophus lie

hoje não:
resolvi isto nem
tomei banho

usei pela primeira vez a pala do carro lateralmente.

continuo à espera do comboio. entretanto, vou cliando teias
e limpando outras, ocasionalmente.

2007-02-20

agora como são vizinhos já não faz sentido?
por que raio parou o comboio, no fim de contas?
voltei a andar na semana passada e soube-me tão bem que me pareceu idiota o tempo que estive afastado. mas não sei se faz sentido voltar aqui.
vou voltar a convidar-te e só avança se houver unanimidade.

2006-06-12

já que não falamos em mais sítio nenhum, já que tem sido difícil estarmos. eu contigo, tu comigo, eu com alguns poucos que aqui vêm, esses alguns poucos comigo. aqui fica um bocadinho.

a pingar água que nem fonte milagreira. venho da lezíria. há mais de uma semana que não arranjava tempo para sair de bicicleta.

os ensaios vão andando. às vezes fico à beira do precipício. ainda não sou senhor do corpo como se quer no teatro. entre as várias lacunas, é essa a que mais me perturba. em 10 segundos de representação tenho 20 coisas às quais tomar atenção, 20 erros a aperfeiçoar. às vezes só apetece desistir. ainda para mais estou a trabalhar com profissionais. no fundo, eu estou a tirar um curso, a fazer a minha formação, e eles a trabalhar. é um desequilíbrio terrível para mim, que suporto muito mal estar a aborrecer as pessoas, que suporto muito mal não ser capaz de. mas depois vou ao lugar, faço ligeiros progressos, recupero um pouco de alento. mas está a ser e ainda será muito duro. mas bom. mas bom, mas mau, mas bom. sempre assim.

na noite perco-me facilmente. ou tenho um sítio onde a música me possa ancorar, onde possa tentar dançar, com a ajuda de algum álcool e coiso, ou então é o sentimento de deriva constante. exemplo da deriva: sábado fui ao grémio, cheguei lá tarde, às 4. o chão estava peganhento, a temperatura e cheiro do ar eram a dos corpos elevados ao quadrado. atravessei a sala directamente para a varanda que dá para o rossio e fiquei por lá grande parte da noite a ver as vacas sem pasto e os polícias a pastarem a sua guarda, entediados de morte. jim morrisson a cantar o light my fire. depois voltei para junto das pessoas com quem vim e fiz ninho.

hum. gostava de ir ver alva noto e sakamoto. mas ainda não sei. tenho bilhete pago para o teatro no mesmo dia. a ver.

2006-06-05

mail à joana na ressaca da mãe e da puta


acabei hoje de o ver.

lembrava-me do que tinha sonhado ao acordar, mas entretanto esqueci-me de tudo.

há perguntas que destroem a beleza de tudo. o monólogo que te envio é absolutamente terrível, nesse aspecto. a sinceridade com que esta mulher se despe no seu equívoco, a dor de estar consciente dele. entre a puta e a mãe, perdida, tão perdida.

acreditar que se possa amar pelo tempo adentro, em continuidade. talvez a vida inteira, até morrer. se nos mantivermos em constante renovação interior, o espaço que ocupamos no outro é, pela dinâmica, sempre ocupado. não sobra espaço para mais, é naturalmente perfeito. e se sobrar, o problema é nosso, do outro, e do acaso. temos de agir face a isso com todos os meios que estiverem ao nosso alcance, à excepção do ciúme, que é muito simplesmente um sentimento de derrota violenta. execrável. o problema é que para a renovação interior é necessário um contacto permanente com o exterior. e é do exterior que vem a ameaça. estamos a falar de uma busca de equilíbrio sempre precária, portanto.
pergunto: quantas vezes não terá o equilibrista a vertigem de se deixar cair na rede, só para sentir a velocidade, a gravidade? o seu trilho é o da corda. a cada um o seu trilho. já lhe bastará cair por manifesta incapacidade de se equilibrar, a certa altura. e quando cair, que frua. (e ser honesto aqui, não fingir que perde o equilíbrio quando na realidade se deixou cair) mas: cair voluntariamente e desistir do percurso, que, ainda que difícil, a corda lhe traça tão claramente? e foi assim que chegou à conclusão de que queria viver com ela para o resto da vida.

vou dizer isto ao luís, no comboio.

2006-06-01

a isto chamo humildade

antes das imagens apenas mentais, a imagem mental imposta por aquilo que se vê. sem tempo para mais.
aceitar viver, sem adjectivação ou modulação interiores, aceitar uma certa dose de deriva intrínseca ao acto cru de viver. e não há nada de errado com isso, a não ser que se queira ser senhor de si até às últimas consequências: a concentração extrema em si apenas: os deuses solitários. já não.

descobrir então a oferta da minha substância ao acaso, a maior bebedeira pela libação. quando não sei, em vez de me imobilizar, deixo-me empurrar pelo vento, acato a sua decisão, porque o movimento é sempre mais precioso. terrões a esfarelarem-se à beira do abismo sob os pés, mas e depois? salvaguardando o centro, tudo me é permitido.

um nirvana que apanha desconcertantes boleias samsarescas de tempos a tempos.

2006-05-30

the sky isn't too high

Me you, we two, trying to begin, trying to begin
Me you, we two, trying to begin, trying to begin
And the wind will blow, but my love won't go, my love won't go
Me you, we two, trying to begin, trying to begin


a menina escura disse que se correr bem, melhor; se correr mal, azar, já estive bem pior. estou a juntar-me à volta das coisas boas e das coisas más que não quero fazer. para ver o que de bom pode acontecer. mesmo quando não é como esperávamos e queríamos que fosse, antes de imaginarmos.

2006-05-15

hum.

ó comboio, sem boio, sem bu, sem gus-ta-vu.

acho que a última náufraga ripa de madeira deu à costa. vamos recolhê-la, deixá-la secar ao lado do fogo que há-de alimentar quando estiver seca. e esperar mais naufrágios.

comboios a lenha é assim. mas também são os do vapor mais bonito.

acorda-me quando voltares, vou-me esticar, dormir uma sesta nos três bancos até precisares de um deles ou até eu acordar.

*boceja e adormece*

2006-05-08

lembrei-me de ti hoje ao passar na zona da neve primaveril, lembras-te? aqueles flocos das árvores, onde te fizeste grávido.

e depois as flores todas, os cheiros todos.

fica a pergunta: sábado à noite tem palavras? podias deixá-las aqui?

fica bem, barril de futebol.

o belém desceu.

cumpra-se agora a primavera na multiplicidade das flores.

2006-04-12

ainda os sopranos, sempre os sopranos. no seguimento do tema 'be a man', do determinismo genético, da luta interior. sei que sou chato com isto, mas prefiro pensar que é uma questão central.
sinceramente, acho que é. diz o tony numa das sessões com a psiquiatra, após confessar que tinha desmaiado no dia em que deveria ter acompanhado o primo num assalto, o qual ficou 17 anos dentro ao ter sido apanhado... bom, o contexto ajuda a perceber mas não é essencial. essencial é isto:

turns out i'm just a fuckin' robot to my own pussy-ass weakness

é de soprar o cano a esfumaçar,
a boca do gajo após uma baforada de charuto.

eu percebo-te, puto.
é continuar a espernear.

2006-04-10

It would be silly to say the music saved or healed me, but in my daily routine of hot baths, of opening cans of beer and food, what I held onto was music. Not for salvation - nothing can do that for you - but for the consolation of its promise, its spark of life, its wild, powerful synaptic arc across spirit, mind, and meat.

not fade away -
Jim Dodge

2006-03-25

- People always end up the way they started out. No one ever changes. They think they do but they don't. If you're the depressed type now that's the way you'll always be. If you're the mindless happy type now, that's the way you'll be when you grow up. You might lose some weight, your face may clear up, get a body tan, breast enlargement, a sex change, it makes no difference. Essentially, from in front, from behind. Whether you're 13 or 50, you will always be the same.
- Are you the same?
- Yeah.
- Are you glad you're the same?
- It doesn't matter if I'm glad. There's no freewill. I mean, I have no choice but to chose what I choose, to do as I do, to live as I live. Ultimately, we're all just robots programmed abritrarily by nature's genetic code.
- Isn't there any hope?
- For what? We hope or despair because of the way we've been programmed. Genes and randomness, that's all there is and none of it matters.

palindromes

mesmo um por cento de determinismo já é suficiente para toda a revolta.

2006-03-14

a impossibilidade de ter uma vida interior a tentar ser aqui contrariada nesta meia hora. amanhã estreia a fantochada. data de libertação, também.
curioso que desta impossibilidade têm resultado os sonhos mais saturados e intensos, nem te passa. sonhado terrivelmente com flores e plantas várias, já que durante o resto do tempo não tenho tempo nem cabeça para.

entre tantas coisas que se apagaram, ficam estas:

ontem, duas e tal da manhã, um cão tranquilamente instalado no meio da estrada, a roer uma bota de camponês, nos subúrbios dos subúrbios da cidade de subúrbios. ter de travar o carro a fundo e esperar que o danado se decida a sair, preguiçosamente. fica uma mancha de baba no local que abandona. leva a bota, evidentemente. (isto não foi sonhado)

a viagem no tempo ao limpar a frincha lateral do sofá (o almoço está na mesa. time's up. seguem tópicos.)

o mercantilismo da linguagem amorosa (conversa com o nuno).

e por falar em nuno. mal acabe a expocriança e a fantochada, arrancamos com a gordura. até que enfim. fazer uma coisa no taetro de que se gosta, sem reservas.

*expira*

2006-03-12

condescend

to a point
you will fail,
so i'll condescend.

without doubt
you will fail,
then i'll condescend.

at a point
i will fail,
still i condescend.

to a point
you will fail,
so i'll condescend--
then i'll condescend--
still i condescend.

esta foi a primeira música que ouvi deles, numa compilação da kranky na qual tropecei por mero acaso, por altura do programa de poesia que fazia com a carla na rádio 100. a vertigem de ouvir isto e caminhar vagarosamente na direcção da maior poça de lama ensanguentada pelo reflexo das nuvens de chumbo venenoso. e o comprazimento dos pés molhados.

hoje volta-se a ouvi-la, mas com toda a revolta concentrada em mais uma insónia. reflecte-se sobre. a condescendência: a cobardia com a maquilhagem da bondade. há merda maior?

a cara esbofeteada de jesus corou de raiva no templo violado. difícil de gerir, isto tudo? sem dúvida.

eles sabem. dão a voz a quem falha mas no momento final dizem, vê só o que dizem:

rope

you're gonna need more
don't ask me to kick any chairs out from under you

retumbante, foda-se.

(não se aprende verdadeiramente, mas acompanha-se de perto a complexidade real das coisas. fraco mas consolo.)



2006-03-10

desculpa interromper este teu silêncio antes da resposta, mas tem mesmo de ser. os meus dias têm tido tantos pequenos relevos no meio de uma azáfama monótona, e só não tagarelo mais por cansaço puro. estou aqui agora graças à sombra de uma bela insónia. a ver se a despacho com isto. e com um gesto ao sol que há-de nascer não tarda, também.
então foi assim:
hoje passei por uma florista e lembrei-me de uma coisa. saí de lá com sementes de ervilha-de-cheiro encomendadas para segunda-feira. estamos em boa altura para as plantar, segundo a senhora. foi uma boa compra, tanto para o final como para o início de uma história.
À noite, uma ave branca, enorme, bateu contra o carro na viagem para Santarém. Ao entrar na sala de ensaios, deparo-me com uma ave enorme de asas abertas, em madeira, sobre o balcão, virada de barriga para cima, desgraciosamente, como uma tartaruga. De seguida, ao ir deixar o cenário no teatro para a representação de amanhã, não posso deixar de ler as primeiras linhas da folha caída do alinhamento do espectáculo de fados que se tinha aí realizado nessa noite: a primeira canção tinha sido a ‘andorinha’.
(pg six outra vez, muito. a salvar, muito. e já descobri de onde vem aquela letra, mas era bom que viesses ao azul para partilhares, sacaninha.)

2006-03-08

antes de responder

In the old town
When I last came around
Things were not so obvious
She was not parading as she had
Werner whispered to me
"Marriage is bliss !
It's something that I've skirted around
But that I don't plan to miss

O Blokbuster
O Blok !
Waiting to know
Waiting to see
Waiting to go
I was waiting for thee"

But stuck in a corner
She was seen, stumbling over there
"I washed my hands of him
But he thought I was washing my hair !"
Unrecognizably red
I slipped through the scene
Out on the street there was no time
To pause or look back ...

"O Blokbuster
O Blok !
waiting to know
Waiting to see
Waiting to go
Waiting for thee !"

... It's better to be
So far off from thee
Where I recall you pleasantly
Where I can feel free
Now I wander aimlessly
No light on in the hall
No friendly step a-steering me
No guiding hand at all

"O Blokbuster
O Blok !
Waiting to know
Waiting to see
Waiting to go
I was waiting for thee"
vai ouvir o dots & loops & ainda quero incendiar-te um peido.
: )

precisas é de um 112. como todos, cada qual à sua maneira.

a conversa da inferioridade é a maior palermice e tão de sempre mas ainda assim tão raisparta de ler. 'não racionalizes', apetece-me roubar-te, também.

e apeteceu-me mandar à merda como beijinho, exactamente. foder-te os cornos. e dá-me um prazer imenso foder-te os cornos, verdade. porque são rijos à força. e não são demais assim por ser. que os há rijos e quase que se acabou, sim, quase fatal. os teus são rijos demais porque eu sei, porque eu vi, porque eu li, porque porra, como explicar aqui? porque sei que são cornos espantalheiros. que cada vez me assustam menos. e agora para cúmulo, apossesso-me da tua violência para a macacada. certo, de vez em quando fico com as costas a arder da estalada ou pior, com palavras da maior violência a latejar-me nos ouvidos. e então?
conheço o touro bufão cada vez melhor. e a única coisa que me interessa é que se desengane da força da violência. que deixe de se sentir na porra da arena, constantemente.

a minha moleza excessiva, certo. a tua dureza excessiva, certo? mas porque não somos histórias no fim, porra, não somos, sentamo-nos a ver o pôr-do-sol assim? tu de costas eu de barriga? recuso-me a resignar-me perante a fraqueza excessiva com que nasci. nasci azul, caralhas, fui directo para a incubadora, nem chorei. mas depois, e pelo que a mãe diz, mamava que nem um desalmado. foda-se, desalmado. isto faz um eco tramado com a coisa do outro dia.

bom, mas e tentar recuperar a força passa, por vezes, paradoxalmente, por ser-se capaz de fazer ver-se a si e a outros a fraqueza da força, ou melhor, da violência. e vice versa: a força de um gesto que confessa a vulnerabilidade toda, mas a cabeça erguida. o plano do cowboy de costas a chorar, nós não vemos, mas sabemos, lembro-me do meu professor de história do cinema falar desse plano, já não sei o filme, acho que era um do Ford, o meu professor de história do cinema, um dos homens com os olhos mais doces e tristes que já vi, e dos quais curiosamente encontrei réplica hoje: o senhor que vende botões e fechos e tintas para tingir que foi o que lá fui comprar. havias de vê-lo a arranjar o fecho de uma senhora. a perícia dos gestos do gajo. quem me dera. tenho falhado tanto, luís. sabes lá tu.
porque a força não se pode confundir com a violência nem com o poder. a força é outra coisa. estou convencido disto, profundamente, por mais suspeito que seja de o afirmar, na minha fraqueza por vezes excessiva. por vezes. quando me entusiasmo (demasiadamente, face ao frio que está realmente lá fora - demasiadamente este muito relativo) e esqueço algumas regras básicas de sobrevivência.
e o que sinto por ti. não vou cair na ratoeira de o escrever aqui. sabes que o senti, e tão. sim, nos grandiosos momentos em que deixavas de precisar dos cornos.

esta merda em repeat desde que cheguei. que tem tudo a ver, tudo.

Coo coo it's cold outside. Coo coo it's cold outside.
Ooo coo coo. Don't forget your mittens.

Hey Pal! How do I get to town from here?
And he said: Well just take a right where
they're going to build that new shopping mall,
go straight past where they're going to put in the freeway,
take a left at what's going to be the new sports center,
and keep going until you hit the place where
they're thinking of building that drive-in bank.
You can't miss it. And I said: This must be the place.

Ooo coo coo. Golden cities. Golden towns.
Golden cities. Golden towns.
And long cars in long lines and great big signs
and they all say: Hallelujah. Yodellayheehoo.
Every man for himself. Ooo coo coo.
Golden cities. Golden towns. Thanks for the ride.

Big Science. Hallelujah.. Yodellayheehoo.

You know. I think we should put some mountains here.
Otherwise, what are all the characters going to fall off of?
And what about stairs? Yodellayheehoo. Ooo coo coo.

Here's a man who lives a life of danger.
Everywhere he goes he stays - a stranger.
Howdy stranger. Mind if I smoke? And he said:
Every man, every man for himself.
Every man, every man for himself.
All in favor say aye.

Big Science. Hallelujah.. Yodellayheehoo.

Hey Professor! Could you turn out the lights?
Let's roll the film.

Big Science. Hallelujah.
Every man, every man for himself.
Big Science. Hallelujah. Yodellayheehoo.